terça-feira, 28 de setembro de 2010

Cultura de Paz contra a violência

Uma versão levemente reduzida do artigo a seguir foi publicada pelo JORNAL DA TARDE, de São Paulo, na seção Opinião (pag. 2), em sua edição de 25/09/2010.

Quem de nós fica tranquilo quando um filho ou filha sai à noite, em busca de diversão nas baladas da juventude?

O medo da violência, ironicamente, leva muitos a clamarem por mais violência para aplacá-la. Como se bombeiros usassem gasolina na luta contra um incêndio.

É o que ocorre quando se opta pela repressão como único (e discutível) antídoto aos crimes que alguns programas sensacionalistas fazem questão de alardear com máximo estardalhaço.

Outros brandem as questões estruturais como justificativa para os crimes. Ou seja, só teremos uma sociedade mais pacífica se e somente se todos os problemas estruturais como fome, falta de saúde e de educação forem solucionados.

Tal crença, contudo, conduz ao imobilismo, à desistência de se encontrar alternativas para a violência. Se formos esperar que toda a estrutura social seja reformada, para só depois agir, estaremos perdendo inúmeras oportunidades de realizar pequenas ações e intervenções pontuais que, somadas, podem resultar em significativas melhorias.

A cultura da paz parece-me mais apropriada, exequível e eficaz. Ela nos convida a aproveitar cada espaço – sala de aula, bar, condomínio, escritório, praça – como um fórum permanente de reflexão e de busca de opções para a construção da paz.

Mas isto funciona mesmo, no dia a dia, em que motoristas param seus carros para brigar porque um teria fechado o outro?

Sim, porque o verdadeiro antídoto contra a violência é a paz. Não há outro. Paz entendida como respeito, diálogo, empatia e participação cidadã. Até porque a forma mais disseminada e frequente de violência é a cometida entre familiares e parceiros íntimos. Logo, parte considerável dos crimes não é cometida por profissionais do submundo, e sim por pessoas comuns, respeitáveis cidadãos que, em determinado momento, perdem a cabeça por situações corriqueiras – uma discussão doméstica sem sentido ou uma provocação na rua.

Um dos melhores lugares para se fomentar os valores da paz é a sala de aula. Para isso, teremos que tornar o ensino cada vez mais atraente e com conteúdo significativo, sintonizado com as necessidades do mundo real e com o mundo virtual das redes sociais.

Nas regiões de baixa renda, é necessário que as escolas reconheçam as condições de vida dos estudantes, considerando situações como a inexistência de mesas, cadeiras e de ambiente para uma prosaica lição de casa. Se não há moradia digna, como exigir que o aluno estude no lar? Até que ponto os cursos de Pedagogia preparam os futuros educadores para lidar com essa realidade e compreender as necessidades de grande parcela dos educandos?

Parecem ser detalhes, mas fazem diferença. Atividades artísticas e esportivas, estudos ao ar livre, jogos, realização de ações sociais na comunidade e uso pedagógico da internet podem mudar a visão que os alunos têm da educação. E, com isso, abrir espaço para a discussão e vivência de temas como a pacificação de corações e mentes.

Não se trata de um movimento rápido, imediatista, com resultados ao final do expediente. É uma mudança cultural, uma revolução real, que trará frutos em médio prazo, pela mudança de atitudes individuais e pela construção coletiva de uma sociedade mais justa, solidária e inclusiva.

Temos que começar logo. Estimular os professores que já ousam introduzir elementos da cultura de paz em suas classes. Não há investimento mais relevante hoje – fortalecer a escola, o professor, o estudante e sua família. Impedir que as comportas da violência transbordem e criar um futuro do qual possamos nos orgulhar.

Mostrar às crianças e jovens que há caminhos, sim, para a solução de conflitos - longe da agressão e criminalidade.

Apontar saídas para a pobreza e exclusão a partir do conhecimento, do trabalho, dos valores humanos e da cooperação social.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

DIA INTERNACIONAL DA PAZ

Divulgo texto do jornalista Nereu Leme, da Casa da Notícia:

No Dia Internacional da Paz, Feizi Milani afirma que a paz precisa ser conquistada

O Conselho Parlamentar pela Cultura da Paz, da Assembléia Legislativa de São Paulo (CONPAZ) e a Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz, da Prefeitura de São Paulo (UMAPAZ), comemoraram nesta terça-feira (21/9/2010) o Dia Internacional da Paz, estabelecido pela ONU.

Defensor da disseminação do direito universal à paz como premissa para construir uma sociedade mais justa e formar jovens mais conscienciosos acerca de sua importância social, Feizi Milani, Professor de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, fez uma palestra para alunos e professores do Curso Carta da Terra em Ação na UMAPAZ e disse que “a paz não acontece sozinha; tem que ser construída”.

Ele explicou, tanto na reunião do CONPAZ quanto na UMAPAZ, que o desafio da sociedade moderna é sensibilizar e mobilizar cada vez mais pessoas para a construção da paz:

“A paz requer compromisso e engajamento de cada um de nós e de toda a sociedade, porque a paz se manifesta não pela força, mas pela compreensão”, disse Feizi Milani.

De acordo com o médico e educador, é possível se identificar dois processos simultâneos hoje no mundo: desintegração e integração. O primeiro leva a sociedade ao declínio e o segundo à emergência de uma nova cultura.

Explicou, por exemplo, que no tema sustentabilidade, nunca houve tanta agressão ao meio ambiente, o que representa o processo de desintegração.

“Mas, também nunca houve tanta consciência de que precisamos fazer alguma coisa para salvar o planeta, além de ações concretas com esse objetivo. Esse é o processo de integração que deve ser seguido pela sociedade, no nível macro e pelos indivíduos, no nível micro”, explicou.

A experiência profissional deste médico-educador deu origem ao livro “Tá combinado! Construindo um pacto de convivência na escola”. Milani também fundou o Instituto Nacional de Educação para a Paz (INPAZ), uma organização não governamental e sem fins lucrativos, que reúne uma rede de profissionais qualificados e experientes de várias regiões do Brasil. Em seus 10 anos de existência, a ONG capacitou centenas de professores e jovens, publicou três livros e participou de eventos de grande relevância social e educacional.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Educação para o mercado de trabalho

Toda vez que a economia brasileira cresce em ritmo mais acelerado, há uma reclamação comum às empresas: faltam profissionais preparados para preencher as vagas existentes. A formação oferecida pelo Ensino Médio e pela Universidade não contemplaria as necessidades do mercado de trabalho. Muitos defendem, então, que haja ênfase absoluta em conhecimentos e técnicas requeridos para o dia a dia do trabalho. Ou seja, que a formação acadêmica seja definida pelos ditames e demandas do mercado..

Não nos esqueçamos, contudo, que a qualidade profissional de qualquer trabalhador depende diretamente de suas qualidades como ser humano. Ninguém se torna um profissional sem antes se constituir como ser humano. Esse ser humano pode se caracterizar por honestidade e integridade, por exemplo, ou pela ausência dessas qualidades.

Qual é o empresário interessado em contratar um profissional mentiroso ou desonesto? Alguém já calculou quantos recursos financeiros já foram queimados por profissionais cujo caráter não era fundamentado em valores éticos? Pensemos nos prejuízos causados pelas variadas formas de corrupção, tanto em órgãos governamentais quanto no setor privado, pela venda de informações comerciais ou segredos industriais, e outras escolhas moralmente equivocadas... Tudo isso foi feito por profissionais altamente competentes em suas especialidades, muitos dos quais oriundos das melhores escolas!

Essa opção entre “capacitação técnica” e “formação humana e ética” é ilusória, porque não são excludentes. Ao contrário, são complementares, e uma exige a outra. Capacitação voltada somente a habilidades técnicas e conhecimentos científicos poderá solucionar a demanda por mão de obra em curto prazo, mas irá desencadear consequências negativas por muito tempo. Por outro lado, que sentido faria prover uma formação humana e ética desconectada das necessidades concretas da sociedade?

Logo, por mais difícil que pareça, temos que educar a criança, o adolescente, o jovem para ser um profissional, um eleitor, um contribuinte e um consumidor consciente. Em suma, para ser uma pessoa que trabalha, que exerce a cidadania, que se dedica à família, aos amigos e ao bem comumda sociedade.

Não podemos retroagir ao ambiente retratado, brilhantemente pelo genial Charles Chaplin no filme “Tempos Modernos”. O ser humano não deve ser reduzido à “mão de obra”. Ninguém, exclusivamente, profissional. Somos pessoas com múltiplas dimensões e potencialidades, e a educação pode e deve nos ajudar a sermos melhores e plenos, em todos os sentidos.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Os males do excessivo individualismo

A dificuldade de se trabalhar em grupo reside no fato de que esse processo depende de um conjunto de qualidades, atitudes e competências que muitos não desenvolveram

Um dos paradoxos de nossos dias está na exigência de profissionais competitivos, de um lado, e de cidadãos que saibam trabalhar de forma ética e viver em comunidade, de outro. Ou seja: querem que saibamos partilhar, mas somos estimulados, ensinados e cobrados a vencer e superar o próximo.

Exatamente porque essa cultura ainda predomina é que precisamos trabalhar, de forma cada vez mais sistemática, continuada e eficiente, para promover princípios éticos. O ambiente escolar e universitário deve propiciar situações concretas por meio das quais os estudantes vivenciem experiências de cooperação, resolução de conflitos e convívio com as diferenças. Não basta apregoar esses valores, é preciso que eles sejam exercitados na prática.

Precisamos perceber a relação direta de causa-efeito entre o discurso da competição extrema, do sempre levar vantagem, do vencer a qualquer custo, do cuidar somente de si e do que é seu, e o panorama geral da sociedade, marcado por violências, destruição ambiental, solidão e vazio existencial.

Muitas pessoas fazem de conta que uma coisa não tem nada a ver com a outra. É como se pensassem: eu posso ser egoísta, mas a sociedade deve ser solidária! Como é possível haver uma sociedade humanizada, justa e acolhedora formada por pessoas individualistas e egocêntricas?

A cultura ocidental contemporânea se caracteriza pelo individualismo e pelo imediatismo. E como todos nós estamos imersos nessa cultura, tendemos a acreditar que trabalhar em grupo seja uma tarefa quase impossível, algo que exija um esforço sobre-humano. Reconheço que não é fácil trabalhar em grupo; no entanto, "Sozinho se vai mais rápido, mas juntos se vai mais longe".

É trabalhando em grupo que a pessoa pode aprender mais, enriquecendo sua visão ao entrar em contato com percepções diferentes. É impossível a alguém enxergar a multiplicidade de ângulos de uma questão – principalmente se esta for complexa. Ora, a maior parte dos problemas que uma empresa (ou a sociedade) enfrenta são de grande complexidade, e requerem abordagens que incluam a diversidade, a multiplicidade e a multidimensionalidade. Isso só pode ser alcançado em grupo.

A dificuldade de se trabalhar em grupo reside no fato de que esse processo depende de um conjunto de qualidades, atitudes e competências que muitos não desenvolveram ao longo de um processo de escolarização tecnicista – empatia, escuta ativa, respeito às opiniões contrárias, tolerância para com o jeito de ser de cada um, humildade em reconhecer que não é o dono da verdade, cortesia etc. É por intermédio do diálogo e da participação que um grupo se constrói.

Obviamente, ninguém nasce sabendo trabalhar em grupo. É preciso aprender, e esse aprendizado se dá na prática e ao longo da vida. Observemos os estágios do desenvolvimento infantil: o bebê não admite partilhar seus brinquedos; a criança aceita emprestar o seu brinquedo a outra, desde que haja uma permuta; a criança maior já é capaz de participar em esportes coletivos; e o adolescente busca ativamente engajar-se em algum grupo e sente prazer na partilha. O amadurecimento se dá em direção a relações de cooperação e interdependência.

Mas a cultura pode tolher esse aprendizado. Não podemos tolerar o excessivo individualismo, egoísmo que nada constrói. Temos que reaprender a trabalhar – e a nos desenvolver – em equipe.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Medicina, Saúde e Universidade - reflexões que permanecem

Fui o orador de minha turma, na cerimônia de colação de grau em Medicina, na Universidade Federal de Alagoas. Já se vão mais de vinte anos desde aquele 9 de julho de 1988, hoje sou professor do curso de Medicina da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. Continuo a sentir que várias das idéias que expressei no discurso de formatura permanecem atuais - por isso, compartilho-as com vocês:


(...) À medida que avançávamos no curso, fomos descobrindo, para nosso espanto e decepção, que Medicina não é sinônimo de Saúde. Pelo contrário, a Medicina mecanicista, tecnicista, mercantilista e ultra-sofisticada muitas vezes praticada atualmente tornou-se um empecilho à verdadeira melhoria das condições de saúde da população como um todo. Pois que Saúde pode ser considerada como o estado de completo bem-estar físico, mental, social e espiritual. Não pode ser vista apenas como ausência de doença, lesão, debilidade ou deficiência.

Esta visão ampla e global da Saúde permite-nos compreender que ela está diretamente relacionada e é, na realidade, dependente de fatores e questões tais como salário real, qualidade de vida, nutrição, condições de habitação, saneamento básico, higiene, produção e distribuição de alimentos, tradições e costumes populares etc. Basta acrescentarmos que hoje, no Terceiro Mundo, a doença mais freqüente, mais indecente e que causa maior número de mortes é a fome. E é também a doença que mais facilmente poderia ser evitada, pois existe uma vacina altamente eficaz e simples: panela cheia todos os dias!

Percebemos, então, que os médicos deveriam estar plenamente engajados na discussão e solução dos problemas mais amplos da sociedade, e não apenas preocupados em diagnosticar doenças e medicar doentes. Afinal, se a Saúde depende de tantos fatores, por outro lado, é ela que viabiliza toda e qualquer atividade humana.

Hoje, nós médicos estamos sentados nos consultórios, nos hospitais e nos gabinetes burocráticos, aguardando passivamente que as pessoas adoeçam, para que então possamos intervir. Entretanto, não é este o nosso papel e nem é esta a nossa missão.

Não obstante, para nossa vergonha e para descrédito das instituições educacionais brasileiras, podemos afirmar que nos seis anos que passamos na Universidade, não houve “tempo”, “espaço” ou “abertura” para debater questões prementes, tais como a fome, os menores abandonados, o alcoolismo, a toxicomania, a prostituição, o aborto, a morte e tantas outras... Jamais tivemos a oportunidade de participar numa discussão na qual as causas e conseqüências desses fenômenos fossem abordadas em seus aspectos médicos, sociais, psicológicos, morais, históricos, políticos, legais e econômicos. Chegamos, então ao ponto de questionar: para que serve o Conhecimento? Para que serve a Universidade, se o conhecimento que ela transmite nos distancia e aliena da realidade em que vivemos?

A impressão que se tem é que a Universidade brasileira está situada não na Terra, mas em outro planeta, talvez Saturno, onde os anéis coloridos distraem e desviam a atenção dos problemas concretos que exigem solução imediata.

A Universidade precisa corrigir os seus rumos, reconsiderar tudo que tem feito até agora, sair da “torre de marfim” em que se isolou e olhar para si própria como um dos membros que compõe o organismo vivo da sociedade. Se nós, alunos e professores universitários, tivemos uma oportunidade melhor que a maioria de nossos concidadãos, é nosso dever inescapável oferecer uma parcela maior de trabalho para o bem-estar coletivo.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Lunático

Sempre que apareces assim, em teu esplendor pleno, em tua beleza radiante, sinto que fico ensandecido. Tento, em vão, desviar o meu olhar, mas algo em ti me hipnotiza e volto a te contemplar, extasiado.

Sei que jamais serás minha, mas ainda assim sonho em ter-te só para mim. E faço de conta que não sei que derramas teu charme para todo e qualquer homem, até mesmo para os que não te dão atenção. Apesar de tudo, não tenho ciúme. Eu me conformo, desde que eu sinta que, em meio à multidão de admiradores e apaixonados, tu me percebes.

Tu sabes, como ninguém, cultivar essa aura de mistério - convidativa e distante ao mesmo tempo, por vezes, exibida ou tímida, sensual ou fria - o que te torna mais sedutora ainda.

Faço de conta que não existes, mas ao primeiro sinal de tua aparição, todo o meu ser se altera. Pra ser sincero, já me dei conta que, desde a véspera, entro num estado de expectativa e excitação, como se a intuição colocasse todo o corpo em estado de alerta. Fico sensível, agitado, inundado de desejos.

Tento me esquecer de ti, dessa paixão impossível, mas logo descubro tratar-se, na realidade, de um amor incurável. Às vezes me aborreço por teres um efeito tão intenso sobre mim, como se eu não conseguisse me controlar. “Quem ela pensa que é ?”

E quando resolves brincar de esconde-esconde, fugindo de mim por detrás de árvores, prédios, nuvens ? ... Atiças meu desejo e reafirmas que és livre, segues teu próprio ciclo e que ninguém te controla. Que posso fazer ?

Quando vais embora sem me avisar, fico magoado, furioso e indignado com tua falta de consideração... Mas já me acostumei a teus hábitos e aceitei as condições que estabeleceste para o nosso relacionamento. Que posso fazer ?

Mas essa indignação desaparece assim que ergo os olhos e descubro que tu, Lua Cheia, estás a iluminar o céu da Terra e do meu coração, também. Pena que demoras 28 dias para regressar e trazer de volta a minha inspiração.

sábado, 24 de outubro de 2009

Viagem

Hoje vou iniciar uma viagem...

Uma viagem,
que nem Marco Polo ousou,
mais demorada que a volta ao mundo
para mais longe de que qualquer Pioneer tenha ido,
a uma profundidade que nenhum submarino atingiu,
tão alta que os melhores alpinistas fracassariam,
numa velocidade mais rápida que a da luz e
lenta como uma lesma sonolenta,
gloriosa como as grandes expedições dos bravos conquistadores,
árida como a travessia do Saara,
turbulenta como uma guerra civil,
perigosa como o salto de Ícaro,
explosiva como a bomba de Hiroshima,
difícil como a travessia do Mar Vermelho,
predestinada como a jornada dos três Reis Magos,
incerta como estar acorrentado nos porões de um navio negreiro,
original como uma obra de Picasso,
estremecedora como um terremoto,
imprevisível como os humores de um adolescente,
cansativa como maratona,
dolorosa como o dilúvio,
a lugares tão desconhecidos
quanto a mais longínqua das estrelas...

Hoje – deseje-me boa sorte –
vou iniciar uma viagem.

Vou em direção
ao desconhecido que habita em mim,
ao íntimo de meu próprio coração,
às profundidades de minh’alma...

Vou
em busca de mim mesmo,
à procura do meu verdadeiro Eu ...

Vou conquistar as terras desbravadas de minha mente e,
um dia,
se Deus quiser,
retornarei vitorioso...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

DOR

Fui lançado ao mar da Dor. Nele imergi. Instantaneamente, a Dor circundou-me de todos os lados. A Dor penetrou em cada poro. Quanto mais eu me debatia, na tentativa de fugir, maior se tornava a Dor.

Já não havia o meu corpo, apenas a Dor. A Dor estava em mim e eu era a Dor. Parecia que não mais havia ar pra se respirar. Imaginei que eu não conseguiria sobreviver, não suportaria tanta pressão.

Meus gritos de socorro ecoavam no vazio. Meu desespero crescia. Cada segundo equivalia a semanas de sofrimento. Parecia que todas as células de meu organismo estavam sendo espremidas ao mesmo tempo.

Minha angústia aumentava à medida que milhares de perguntas pululavam: por que eu? Por que comigo? Por que agora? Por que tão doloroso? Por que não passa? As perguntas, tal como marretas, martelavam insistente e incessantemente em minha mente, e minha Dor aumentava com isso.

Revoltado, culpei a Deus por tudo isso. Clamei e reclamei, mas resposta alguma obtive. Senti-me perdido, abandonado, esquecido, ludibriado.

Debatia-me com todas as forças, lutando contra o mar, tentando vencê-lo. Eu queria dominar a Dor, livrar-me dela. Em vão, eu desejava “voltar ao normal, ao que era antes”. Tudo o que eu conseguia era enxergar uma tristeza sem fim e sentir a Dor que havia se entranhado nas células de meu corpo, deixando o meu coração em carne viva.

Até que... num dado momento, aquele que parecia ser o meu último instante, eu abri mão da fuga, do medo, da revolta, da tentativa de racionalizar e entender.

Parei de debater-me.

Entreguei-me ao mar.

Aceitei a Dor. Recebi-a como parte da vida, como parte de mim – uma parte que também precisa ser amada.

Confiei na sabedoria da vida, nas forças que jazem, desconhecidas, nas profundezas de minh’alma. Confiei, aceitei e me entreguei. Pensei que eu iria afundar, desaparecer, cessar de existir.

Nesse mágico instante, uma Paz imensa tomou conta de mim. Já não havia mais guerra, combate ou disputa. Havia apenas o que É. E o que É, É.

Miraculosamente, embora eu ainda estivesse no mar da Dor, a Dor não mais existia. Todo o meu ser havia sido preenchido pela Presença. Já não mais havia um “eu” desejante, decisor, dominador, controlador. Havia apenas a Presença. E na Presença, tudo o mais desaparece, embora ali esteja.

Enquanto usufruía cada instante, nem me dei conta que as misteriosas correntezas do mar da Dor haviam me conduzido até a praia da Vida.

Saí do mar e me curvei diante dele, em humilde reverência e silenciosa gratidão.
29 de julho de 2009.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

ADOLESCÊNCIA - um fenômeno sociocultural

Trechos extraídos de entrevista publicada por "Presente! Revista de Educação" - editada pelo CEAP (Centro de Estudos e Assessoria Pedagógica) - ano XV, n. 4, set/nov. 2007, pag. 5 a 11.


Presente! - Quer dizer que o quê atualmente chamamos de adolescente é uma invenção nossa?

Feizi Milani - O que nós temos hoje - toda essa caracterização da adolescência como um período de rebeldia, de indefinição, de humor instável, de crise e do adolescente como o “aborrecente” - é um fenômeno cultural e ao dizer isso, não estou afirmando que não é real. A cultura não só é real como permeia todas as nossas experiências. Então, tem gente que pensa, quando eu digo que não é biológico e sim cultural, que a adolescência é fantasia da nossa imaginação. Não. Somos seres culturais. Por exemplo, há povos na África e povos nativos das Américas nos quais quando o garoto chega a uma determinada idade ou atinge uma certa altura, ou a menina tem a sua primeira menstruação, são levados a um local, passam por um ritual e, ao retornarem, são recebidos pela comunidade como homem e como mulher, já de posse de todos os direitos, prerrogativas e deveres de um adulto.

Presente! - E na nossa sociedade como vemos o adolescente, culturalmente falando?

Feizi Milani - Na nossa sociedade a adolescência tem cada vez se transformado numa coisa muito complicada e complexa, principalmente porque está sendo manipulada por interesses econômicos. Quanto mais o adolescente se rebelar contra os pais, ou for “do contra”, não importa contra o quê, quanto mais os adolescentes forem subdivididos em tribos e galeras, e, finalmente, quanto mais precocemente se iniciarem esses fenômenos e mais tardiamente se encerrarem, melhor será para os interesses econômicos da indústria do consumo, da diversão, do lazer. É exatamente isso que está sendo promovido. Então, essa história de "pré-adolescente" é uma invenção extremamente recente. Aconteceu na frente dos nossos olhos. Isso não existia há cinco anos atrás e, “de repente” meninos e meninas de oito e nove anos de idade começaram a dizer “eu sou pré-adolescente”. Ora, isso não partiu de nenhum deles em específico, isso foi induzido pela propaganda, pela mídia e por outros mecanismos e estratégias. Mas com que objetivo? Com o interesse de segmentar um novo nicho mercadológico. Então, existe o nicho das crianças pequenas, depois o das crianças maiores e agora, inventaram o pré-adolescente, sendo que, para cada um desses nichos há produtos específicos: roupas, sapatos, marcas, brinquedos, bandas musicais... . E o que é o pré-adolescente? Nada mais que uma criança que assume artificialmente os comportamentos que ela própria observa no adolescente e que, conseqüentemente, quer ter os mesmos direitos de um adolescente. É uma invenção artificialmente induzida, mas que está plenamente atingindo o seu objetivo de vender mais.

Presente! - Ao falar sobre a caracterização do adolescente, o senhor lembrou que às vezes ele é chamado de “aborrecente”. Parece que ao mesmo tempo em que o admiramos não o poupamos de crítica. Não sabemos o que fazer com ele?

Feizi Milani - Somos uma sociedade permeada por paradoxos. Somos uma sociedade enferma porque ninguém quer ser o que de fato é. A criança quer ser adolescente, o adolescente quer ser jovem, o jovem quer ser adulto e o adulto quer ser jovem. Então, o adolescente é criticado, pressionado a amadurecer por que tem que se tornar adulto, tem que assumir responsabilidades. Por outro lado, adultos e idosos querem ser jovens. A diversão deles, o seu "faz de conta" é que eles também são jovens. Ninguém quer ser velho. Na verdade, poucos querem ser o que são, aceitando a beleza, as possibilidades e as limitações de cada etapa da vida. A maioria das pessoas está tentando aparentar alguma coisa, exceto o que é, de fato. Por que o adolescente não pode simplesmente viver essa fase? Porque o adulto não pode se assumir como tal? Agora, é bom lembrar que adulto não precisa ser chato, monótono, sem criatividade, sem espontaneidade, sem alegria. Por que o idoso tem que ficar dizendo: “Nós somos os jovens da terceira idade”? Qual é o problema de ser velho? Não é o destino de todo mundo? Quer dizer, é preciso ser sortudo, para se viver o suficiente para chegar lá. Mas não, tem que existir a negação. Até as reportagens sobre idosos procuram mostrá-los indo para a farra e com um comportamento bem adolescente. De maneira alguma estou dizendo que o idoso não deva dançar, curtir, passear, namorar, mas cada um assumindo o que é. O que preocupa e angustia, ao ver essa sociedade, é essa enfermidade coletiva. Ninguém está satisfeito com o que é, ninguém aceita viver o momento presente.

Presente! - Se ninguém quer ser o que é, significa que o adolescente está sem referência, sem espelho, não é mesmo?

Feizi Milani - Exatamente. Essa geração, que agora está na adolescência e na juventude, eu a estou chamando de “sem noção” . Essas pessoas, não apenas os jovens, pois há muito adulto sem noção também, foram educadas dentro do modelo familiar da complacência, da liberalidade sem responsabilidades, da falta de limites. São pessoas que não têm noção da existência do outro, nem de seus próprios limites, não têm noção que o mundo não gira em torno do seu umbigo e não conseguem entender a necessidade de leis e normas de convívio. Pensam que todos ao seu redor estão a seu dispor e a seu serviço. Diariamente vejo pessoas assim, onde moro, no trabalho... nos gestos mais simples e em comportamentos como estacionar o carro em local proibido, como subir com o carrinho de compras do prédio e largá-lo no corredor, chegar atrasado para a aula e deixar a porta da sala aberta. Obviamente, os "sem noção" são fruto de uma educação familiar que se baseou na premissa de que os pais devem realizar todas as vontades dos filhos, de que não se pode dizer não, para que a criança não fique frustrada... Bem, essas crianças inevitavelmente crescem! Algumas se tornam adolescentes delinqüentes, outras se tornam jovens irresponsáveis e, muitas, adultos sem noção.

Presente! - O senhor trabalha com adolescentes de diferentes contextos sociais. Por exemplo, o sujeito que começou a trabalhar ainda criança também tem direito a crise de adolescência? Temos diferentes tipos de adolescência?

Feizi Milani - Ele vive uma adolescência diferente, mas a influência do materialismo e do consumismo é tão grande que ele sonha com a mesma coisa do outro que vive num condomínio de luxo. Os sonhos e as fantasias são os mesmos, inclusive as angústias. Quando converso com meninos que trabalham e passam o dia na rua, descubro que, para muitos deles, o maior sonho é ter um celular e, no caso de alguns, o fato de não ter, se transforma em angústia. Aí eu perguntei: para quê você quer ter um celular?

Presente! - É a representação dos sonhos e da angústia num objeto.

Feizi Milani - Exato. Mas até bem pouco tempo atrás, nenhum de nós tinha celular. Depois se popularizou. Para que serve um celular para quem não tem para onde ligar, ou não tem de quem receber ligação ou não tem como pagar a conta? Isso se torna uma fonte de angústia porque o reconhecimento dele como ser humano e cidadão passa pela posse de um bem de consumo. Está correto dizer que não existe "a" adolescência, mas "adolescências e juventudes", no plural, porque as experiências são completamente diferentes. Porém, no final das contas, essa cultura consumista, que só reconhece e valoriza o outro quando ostenta certos bens de consumo - verdadeiros sinais de poder aquisitivo -, permeia todas as classes econômicas e acaba afetando a todos. Só que alguns têm condições de responder a isso, ainda que se submetendo de forma acrítica, ao adquirirem esses bens e sinais, enquanto que a imensa maioria é excluída dessa possibilidade. Isso gera enormes sofrimentos.

Presente! - Não acha que a gente pode esvaziar de sentidos essa nova geração, julgando que em outros tempos era melhor?

Feizi Milani - Eu não assumo esse discurso de “no meu tempo era melhor”. Não idealizo a minha geração, mas vejo que a pressão externa aumentou muito, os mecanismos de gerar alienação foram aprimorados infinitas vezes, o poder da mídia cresceu assustadoramente. Acho que hoje está menos freqüente o adolescente ou o jovem com uma postura protagonista, de assumir uma causa, um ideal seja religioso, ecológico, social... Embora existam muitos projetos trabalhando nessa direção. Então, eu não parto da idealização de uma outra geração, nem de uma postura preconcebida diante da atual, mas venho constatando o quanto essa geração está sendo manipulada. Uma das formas de manipulação é a disseminação do fatalismo. Quanto mais pessoas acreditarem que as coisas sempre foram assim e que, conseqüentemente, sempre serão assim, menos vão se mobilizar em prol de qualquer coisa que represente uma mudança. Apagar a história, fazer com que as pessoas esqueçam a história é uma excelente estratégia de dominação.

Presente! - Esse fatalismo também chegou à escola?

Feizi Milani - O fatalismo é um tipo de infecção que mistura de pessimismo, ceticismo e impotência, e que está altamente disseminada também entre os professores. Estão se sentindo impotentes diante de toda essa situação. Só que, na verdade, os professores são aqueles que têm a maior possibilidade de desencadear alguma mudança. Não que seja fácil, absolutamente. Mas “difícil” não é a mesma coisa que “impossível”! A prova de que é possível é que em muitas escolas, apesar de tudo, existem professores que estão fazendo um excelente trabalho educativo e transformador, um trabalho que vai além da mera transmissão de conhecimento. Porém, esses professores são uma minoria. Existe uma outra minoria que não acredita em mais nada e faz questão de disseminar o vírus do fatalismo. Entre essas duas minorias, encontra-se a maioria acomodada e passiva. Essa é a realidade em todos os campos da vida humana, não apenas na escola. Se analisarmos o fenômeno da violência, veremos que há uma minoria que vive da violência e a provoca, outra que promove a paz, enquanto a maioria fica no meio se sentindo vítima, se lamuriando, se queixando e esperando uma solução mágica. Se essa maioria se engajasse, a sociedade se transformaria rapidamente. Então, a responsabilidade maior recai sobre esses que só pensam nos seus interesses pessoais, numa postura imediatista e mesquinha, e não assumem um compromisso em prol da coletividade. Quando falo desses três grupos - uma minoria que está ativamente comprometida em promover a transformação, outra minoria que está engajada em evitar qualquer transformação e uma maioria que está apática e silenciosa - lembro das palavras de Martin Luther King Jr.: “O problema não é a ação dos maus, mas a omissão dos que deviam fazer alguma coisa pelo bem”.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

E por falar de amor...

Imagine a situação: você está carente, curando feridas emocionais de relacionamentos anteriores, num longo período de solidão, em busca do amor... e, de repente, conhece uma pessoa com valores de vida alinhados aos seus, além de várias qualidades que você muito preza. Você se apaixonaria instantaneamente? Ou conseguiria se aproximar controlando cada passo racionalmente?

Bem, aconteceu comigo. Mais de uma vez. Já faz tempo... Acho que em quase todas, eu fiquei no grupo dos que se apaixonam na hora.

Inspirado por um desses encontros estremecedores, escrevi o texto abaixo. A maioria das palavras se inicia com a letra "S", tal como o nome da musa daquele momento.

Simpática Senhorita,

Senti-me sensibilizado com a sua sede de significado, seus serviços solidários e seu sonho de semear sabedoria. Saiba que em meu sangue surgem sentimentos semelhantes por segundo.

Da Sibéria ao Saara, de Santo Antônio a São Paulo, sinetes subliminares soterraram o sentido do suor e do suspiro. Suprimiram-lhes o sagrado, sujeitando-os a um sofisticado simulacro, subvertendo-os em sofismas. Substituíram a súplica sincera pela surdez, a servitude pela servidão, a simplicidade pelo simplório, a saúde pelo silicone, o social pela solidão, o século pela semana, o solene pela soberba, a sabedoria por slogans.

Sobreviveremos? Sim! O Sol sempre sobrepuja a sombra. Se nossos semblantes sufragam esse segredo, saberemos sublimar o sofrimento e socializar a satisfação.

Sutis sinais siderais são saboreados somente pelos sensíveis. Saúdo a sincronicidade que sugere a sanidade e sepulta o sofrer secreto. Na surdina, o saldo é uma sigilosa saudade que somente eu sanciono. Ao Soberano Senhor suplico socorro e segurança, e aos Serafins, serenidade. Senão, uma sísmica sacudida setentrional será sofrida silenciosamente no seio de meu sistema somático e sensorial. Sequer sonhas com o solavanco dessa síndrome.

Há solução? Sim, na sintonia socializada entre dois seres que, em sinergia, sussurram sílabas sonoras e silenciosas de sagrados sentimentos.

Se não surgir a solução, soturno serei, mas sobreviverei e saberei sobrepujar. Sim, superarei o sofrer e a sede. Serei sempre o que sou, sem simulações.

Sinceramente, Feizi

sábado, 9 de maio de 2009

Mães e filhos


Posted by PicasaAgradeço ao meu querido sogro, Ubaldino Figueirêdo, por me haver enviado a seguinte mensagem, extraída do site http://www.reflexao.com.br/. Trata-se de uma linda reflexão, muito oportuna como homenagem ao DIA DAS MÃES. Publico-a em reverência à memória de sua amada mãe, Dona Clarice, que há poucas semanas abandonou este plano da existência e partiu para as Moradas Eternas do Pai Celestial.

"Sempre soube que ela era importante para mim. Só não sabia o quanto ela era realmente valiosa e especial.

Sempre imaginei que se um dia ela me faltasse, eu sentiria sua falta. Mas nunca calculei o que sua falta verdadeiramente representaria para mim.

Sempre me disseram que amor de mãe é algo diferente, sublime, quase divino. Sempre me disseram tantas coisas a respeito desse relacionamento: mães e filhos.

Tanto disseram, mas foi pouco o que eu ouvi e entendi sobre isso. Banalizei. Não acreditei.

Até o dia em que ela se foi.

Era uma tarde de final de primavera. O vento brando soprava e em minha casa não havia a mais leve suspeita da dor que se avizinhava.

De repente, a notícia. Mas não poderia ser verdade. Não, Deus não permitiria que as mães morressem. Não assim. Não a minha. Engano meu.

Era verdade. A verdade mais cruel e mais dura que meu coração precisou encarar, enfrentar, suportar.

Ela partiu sem me dizer adeus, sem me dar mais um abraço, mais um beijo, sem me pegar no colo pela última vez, sem me dizer como fazer para prosseguir só, dali para frente ... Simplesmente partiu.

E uma ferida no meu peito se abriu. Ferida que não cicatriza, que não sara, que não passa. É a falta que ela me faz. É minha tristeza por querer seu aconchego mais uma vez, seu consolo, sua orientação segura. Querer seu cafuné antes do meu adormecer, sua voz antes do meu despertar. Sua presença silenciosa em meus momentos de angústia, sua mão amiga a me amparar e confortar. Querer outra vez ouvir seu sussurro baixinho me dizendo que tudo vai dar certo e que tudo vai acabar bem.

É uma saudade que aperta meu coração e me faz derramar lágrimas às escondidas. É uma dor de arrependimento por todas as mal-criações que fiz, pelas palavras atravessadas e rudes que lhe disse.

Arrependimento porque agora sei que mãe é mesmo alguém muito especial e porque me dou conta de que os filhos só percebem isso muito tarde. Tarde demais, como eu.

A morte é um afastamento temporário entre os seres que habitam planos diversos da vida. Embora saibamos disso é compreensível a dor que atinge aqueles que se vêem afastados de seus amores pela ocorrência da morte. Muitas vezes essa angústia decorre do arrependimento pelas condutas equivocadas que os feriram, ou que não demonstrar o verdadeiro afeto que sentíamos por aqueles que partiram.

Às vezes são as mães que partem, outras são os filhos, ou os pais, os amigos ... E tantas coisas deixam de ser ditas, de ser feitas, de ser vividas ... Pense nisso! A vida é marcada por acontecimentos inesperados que a transformam, muitas vezes, de modo irreversível.

Cuide de seus amores porque, embora eles sejam para sempre, poderão não estar sempre ao seu lado."

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Celebrando meus 20 anos de Bahia

Foi em janeiro de 1989 que vim para a Cidade da Bahia, recém-formado em Medicina. Inicialmente, a intenção era passar apenas algumas semanas. As semanas, não sei como, viraram meses... Quando me dei conta, estava apaixonado, completamente apaixonado pela Bahia. E não conseguia mais me imaginar vivendo em qualquer outro lugar do planeta.

Bahia, para mim, é um pedaço de África. Uma semente de África semeada no solo da América, onde se mesclou com índios e europeus. A Bahia traz todas essas ricas influências, mas ainda assim, para mim, é África!

Só tive o privilégio de estar no continente africano uma vez, em 1998. Passei três semanas entre a África do Sul, o Botsuana e o Zimbábue. Experiência profunda, inesquecível. Foi lá que escrevi esse poema... não, na realidade, ele brotou em minha alma. É com emoção que o compartilho, em comemoração aos meus 20 anos de Bahia.


FILHO PRÓDIGO

Mãe África,
humildemente venho ao teu encontro
desejoso, ansioso, sequioso…
será que ainda há lugar para mim em teu colo ?

Mãe África,
cresci longe de teu olhar protetor,
em outros jardins brinquei,
dormi escutando histórias outras
e por isto,
pouco sei de ti
e tu pouco conheces de mim…
será que ainda terás paciência para me ensinar ?

Mãe África,
pelo mundo o meu caminho busquei,
por terras longínquas viajei,
outros povos, culturas e línguas conheci,
só para descobrir
que eles também nasceram em teu berço
e são teus filhos
e meus irmãos…
será que ainda me aceitarás de volta ao nosso lar ?

Mãe África,
talvez não te recordes de mim,
talvez olhes para mim e não me reconheças,
talvez eu pareça muito diferente dos teus filhos que contigo vivem,
mas
minhas raízes provém de teu sagrado útero,
meu coração pulsa no mesmo ritmo de teus tambores,
minhas noites foram embaladas em teu berço carinhoso
e meus dias, preenchidos por tua alegre presença,
minha sede foi saciada por tuas graciosas fontes
e minha fome, aplacada por tua generosidade,
meus primeiros passos foram engatinhados perante ti
e as primeiras lágrimas, derramadas em teu solo…

Mãe África,
sei que
estive longe
quando mais precisaste de mim,
me fingi de surdo
quando deixavas escapar gemidos de dor,
mantive-me alienado
quando a confusão imperava em teu lar,
minha acomodação
privou-me de estar lado a lado com meus irmãos…
será que ainda me acolherás com teu abraço ?

Mãe África,
um de teus filhos pródigos
está de volta…
Por favor,
mira-o com teu olhar indulgente e compreensivo
dá-lhe tua mão quente e segura
envolve-o em teu abraço macio e confortador
embala-o em teu colo aconchegante
e… perdoa-o,
com teu coração de mãe amorosa…

Mãe África,
o teu perdão suplico
para mim
e para aqueles de teus outros filhos que,
não tendo herdado tuas virtudes,
esquecidos de que sua verdadeira terra natal és tu,
iludidos pela ignorância infantil
e inflamados pela arrogância adolescente,
voltaram para casa
não para te agradecer e glorificar,
mas te desrespeitando, pisoteando,
machucando teus filhos e filhas,
roubando tuas riquezas,
destruindo teus jardins,
explorando tua generosidade…

Mãe África,
perdoa-me.

Mãe África,
perdoa a todos nós.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

INOVE em 2009...

Para inovar em dois mil e nove, convidei MARIANA MACHADO ARAGÃO, estudante de Medicina da Bahiana, a enriquecer e embelezar este blog com dois de seus muitos encantadores poemas... Para conhecer outros textos dela, visite o seu blog: www.fotolog.terra.com.br/zabuletando

Sim, é a mesma Mariana a quem me referi em minha postagem anterior! Espero que vocês sejam tocados e inspirados por essas palavras, assim como eu o fui...

DEZ VANTAGENS

Mariana Machado Aragão

Se não tenho a vantagem de tuas pernas,
É porque já aprendi a voar.
Se não tenho a vantagem de tuas palavras,
É porque aprendi a falar com os olhos.
Se não enxergo o que tu vês,
É porque aprendi a ver de outro jeito.
Se não escuto o mesmo que você,
É porque agora escuto a mim mesmo.
Não carrego em mim teus prêmios natos,
Pois aprendi a construir em mim outras vitórias.

* * * * * * * * * *

MINHA PRECIOSA IDADE
Mariana Machado Aragão

Trago em mim a pele enrugada.
São as dobras de um passado repleto de lembranças.
As lembranças que me ensinaram a ensinar.
Trago em mim o olhar de um monge,
E seus pensamentos profundos.
Trago em mim o gosto das estradas que percorri.
Sou forte, sou muitos, sou tudo o que vivi,
E o que faltou viver.
Trago em mim uma idade que não faz sentido,
Pois, trago também o calor da mocidade.
Trago canções antigas e as novas.
Este verso em decassílabo.
Sou barroco e arcadismo,
Sou romantismo, realismo...
Sou Semana de Arte Moderna.
Trago em mim as aflições
Dos amores perdidos que deixei pelo caminho.
Mais ainda, daqueles que ainda não encontrei.
Trago as manchas que tentei me livrar,
Espalhadas pelo corpo e pelo olhar,
E aquelas que fiz questão de ter.
Trago minhas vitórias e derrotas,
Amarrotadas na pele encardida.
Estas me doem até hoje, embora ainda não saiba perder.
Trago todas as contradições,
Pois aprendi que é mais fácil morrer do que viver.
Mas, trago em mim uma mania,
Não aquelas de que reclamam tanto,
E que todos as terão,
E sim, uma mania enorme de escolher o que é difícil,
E neste caso,
Trago em mim esta mania absurda de viver!


Obrigado, Mariana... muito obrigado!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Lições aprendidas em 2008

Há dias vinha pensando nas palavras que gostaria de dirigir aos leitores deste blog, por ocasião das festividades de Ano Novo... até que decidi compartilhar algumas lições valiosas que aprendi durante 2008, na esperança de que sejam úteis ao seu crescimento e bem-estar em 2009. Parece-me que essa é uma excelente forma de desejar felicidade, saúde, amor e paz a todos vocês!

Aprendi essas lições de quatro pessoas com quem tenho o privilégio de conviver, e também do Profeta Fundador da Fé Bahá'í.

Dona Shoghieh Shaikhzadeh, mãe de minha amiga Faezeh, caiu e fraturou os dois ossos do antebraço. Fui imediatamente ao hospital dar-lhe apoio. Obviamente, ela estava com muita dor, mas enquanto aguardávamos o resultado do raio X, ela repetia uma frase que aprendera com seu pai:


Quando nos acontece algo inesperado ou aparentemente ruim, não devemos questionar a Deus "por quê?", mas sim pedir a Ele que nos mostre "qual é a sabedoria?".

Eu nunca havia pensado nesses termos. Há uma diferença sutil, mas profunda entre as duas perguntas, e elas conduzem a respostas e, conseqüentemente, resultados e conseqüências bem distintos. A tendência da gente é questionar, querer "tirar satisfações" com Deus, exigir explicações... ou seja, colocamo-nos em um lugar que não nos compete. Pior, por ser uma pergunta equivocada, todas as possíveis respostas que obtivermos estarão necessariamente erradas!

Esse foco – de querer explicações e justificativas racionais – não leva a nada. Quando questionamos "por que isso está acontecendo comigo?" – nosso modelo mental está baseado na premissa de que "eu não mereço isso", "isso não é justo" etc. Mas quando perguntamos "qual é a sabedoria?", estamos tentando descobrir e aprender o que toda a situação tem a nos ensinar. Aos poucos, vão surgindo peças de um quebra-cabeças: lições essenciais para o nosso crescimento, para o propósito de nossa existência.

Mudar a pergunta que fazemos a nós mesmos e a Deus representa um salto quântico na forma como percebemos e analisamos qualquer processo (especialmente os dolorosos!) pelo qual passamos. Aprendi algo valioso com meu amigo-irmão Charles Howard:

Talvez Deus se manifeste ou se oculte, a depender das perguntas que fazemos a nós mesmos!

Também aprendi com Mariana Aragão, acadêmica da Escola Bahiana de Medicina, que


"nem tudo faz sentido, mas tudo tem um significado".
Quanta sabedoria nas palavras dessa jovem de 23 anos!!! Todas as coisas que nos acontecem têm um significado: ou seja, têm um propósito, uma lição a ensinar à nossa alma, algo para o nosso benefício espiritual que está oculto em seu interior. Mas nem tudo faz sentido, ou seja, nem tudo tem uma lógica, ou aparentemente é justo, ou é perfeito, ou pode ser compreendido por nossa mente, ou se encaixa em nossa forma racional de analisar a realidade.

Portanto, melhor é não desperdiçarmos nosso tempo e energia na tentativa de querer descobrir "qual é o sentido" das coisas, mas sim focalizarmos em "qual é o significado", o propósito, o ensinamento, a lição que cada experiência nos possibilita.

Tentar descobrir qual é a sabedoria de tudo que se passa em nossas vidas, dar-se conta das oportunidades de aprendizado e transformação que cada crise nos oferece – isso tudo é a tentativa de extrair benefícios ("luz e misericórdia") de algo que aparentemente é apenas negativo ("fogo e vingança"). Estou citando um dos lindos versículos da extraordinária obra "As Palavras Ocultas", revelada por Bahá'u'lláh, em que Deus Se dirige ao ser humano:



"Ó FILHO DO HOMEM!


Minha calamidade é Minha providência; exteriormente, é fogo e vingança, mas, interiormente, é luz e misericórdia. Apressa-te para ela, a fim de que venhas a ser uma luz eterna e um espírito imortal. É este o Meu mandamento a ti; observa-o."

Concluindo com uma pitada de bom humor, cito o Prof. Dr. Antonio Carlos Souza, estimado colega na Escola Bahiana de Medicina, que diz


"o segredo da vida é saber transformar merda em estrume".
Essa frase reforça o que venho aprendendo, e que tentei compartilhar com vocês. Afinal, a matéria constitutiva da merda e do estrume é exatamente a mesma, mas o seu uso e aproveitamento são bem distintos. Merda é sujeira e mau cheiro, todo mundo foge dela. Estrume é um material precioso que permite adubar a terra, gerando frutos e prosperidade!

Que possamos lidar com todos os eventos de 2009 com a atitude que essas sábias pessoas e palavras nos inspiram!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Campanha da Fraternidade 2009: um novo blog

Galera,

As palavras do Profeta Isaías, mais atuais que nunca, nos alertam que "a paz é fruto da justiça". Esse será o lema da Campanha da Fraternidade 2009, que será uma preciosa oportunidade para se refletir e agir em prol da Cultura de Paz.

Temas como segurança pública, justiça social, exclusão, violências, educação para a paz e solidariedade estarão na pauta de discussões. Parabenizo a CNBB pela iniciativa de escolher um tema tão relevante e urgente para a sociedade brasileira.

Há poucas semanas tive o privilégio de fazer uma conferência em Florianópolis para diretores e coordenadores de Escolas Maristas da região Sul. Foi um encontro memorável. Meu coração se encheu das melhores expectativas ao constatar o grau de mobilização dessas instituições e de seus educadores.

Fiquei imaginando o impacto transformador que essa temática pode ter na vida de milhões de crianças, adolescentes e jovens do Brasil, se todas as Escolas Católicas trabalharem essa temática de forma consistente e bem fundamentada. Essa é a minha esperança... que 2009 seja a semente de muitas mudanças!

Isso me motivou a criar um novo blog, especificamente direcionado a oferecer subsídios para escolas, grupos e comunidades que planejam desenvolver ações em prol da paz e da justiça social. Por favor, visite e ajude a divulgar essa iniciativa:

http://www.campanhadafraternidade2009.blogspot.com/

Ah, sim, também criei uma comunidade no ORKUT, chamada "A paz é fruto da justiça", cujo endereço é:

http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=74594301

O ESSENCIAL

Tudo que até hoje da Vida aprendi
nas seguintes palavras pode-se resumir:


A única busca
que não podes evitar
é a infindável jornada
em busca do teu verdadeiro Eu

O único amor
que não podes deixar de viver
é a plena aceitação
da Realidade que és

O único caminho
que não podes abandonar
é a tortuosa trilha
que conduz ao recôndito de tua alma

A única semente
que não podes esquecer de plantar
é a sinceridade
de amar-te a ti mesmo

A única mina
que não podes deixar de explorar
é a fonte de pedras preciosas
incrustada nas profundezas de teu espírito

A única flor
que não podes deixar de contemplar
é a rosa incomparável
que só desabrocha nos jardins ocultos de teu coração

A única subversão
que não podes boicotar
é a implosão
de teus antigos e antiquados modelos mentais

A única prece
que não podes desistir de suplicar
é pela perseverança
em tua transformação interna

A única luta
em que não podes te acovardar
é contra a tua própria
preguiça, omissão e auto-piedade

A única dança
que não podes deixar de bailar
é o sagrado ritual
do encontro contigo mesmo

A única decisão
que não podes adiar
é aproveitares, com determinação
cada instante da vida para teu crescimento

* * * * * *


Poema que escrevi em homenagem a meu irmão Peiman, em setembro de 1995.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

"A paz é fruto da justiça"

O que é a Cultura da Paz?
É um conjunto de transformações necessárias e indispensáveis para que a paz seja o princípio governante de todas as relações humanas e sociais. A paz não significa ausência de ação, monotonia, passividade. Pelo contrário, é algo dinâmico, em contínua construção, que exige permanente diálogo. Essa é uma caminhada que só acontece pela vontade e pela ação do ser humano. Promover a cultura da paz é, em si, o processo, o aprendizado e a meta.

Como disseminar essa cultura entre as pessoas?
O grande desafio é que essas mudanças não dependem apenas da ação dos governos, nem somente de uma mudança de postura individual. Elas precisam ocorrer em vários níveis: indivíduo, família, comunidade, organizações privadas e públicas e Estados nacionais.

O que pode ser feito para reduzir a violência?
Enfatiza-se muito a repressão à violência, mas esse enfoque é absolutamente ineficiente. O paradigma da Cultura de Paz permite analisar a questão da violência por um prisma muito mais amplo. Um exemplo prático do que precisa ser feito é a Educação para a Paz, um campo de experiências sociais e estratégias pedagógicas que podem ser aplicadas em famílias, escolas, empresas e comunidades.
É importante pensar a cultura da paz nos níveis micro e macro. O primeiro refere-se ao campo de atuação e relações do indivíduo: sua família, bairro, profissão e amizades. As possibilidades de ação nesse nível são infinitas - toda pessoa pode fazer algo simples como sua parcela de contribuição. Mas é preciso atuar também no nível macro, repensar os processos sociais, definir estratégias de mudança coletiva, criar políticas públicas. A paz precisa ser levada a sério, saindo das opiniões do senso comum e buscando-se o conhecimento e a competência.

Como implantar Cultura de Paz onde reina a violência?
Toda injustiça é uma forma de violência e um empecilho à paz. As pessoas das classes pobres e marginalizadas são duplamente vitimizadas: tanto pelas modalidades de violência que ocorrem em todos os segmentos sociais quanto pelas expressões da violência estrutural (fome, discriminação, dificuldade de acesso à educação, saúde e assistência social, falta de perspectivas) que as atingem em cheio.
Feitas essas ressalvas, é preciso combater o crime organizado com todos os recursos que o Estado de Direito permite. De resto, o trabalho em prol da Cultura de Paz nessas comunidades passa pela educação de crianças, adolescentes e jovens, fortalecimento de vínculos familiares sadios, capacitação de educadores, formação de lideranças, promoção da participação cidadã, criação de espaços públicos para a cultura, arte, lazer e esporte, melhoria da qualidade de vida, construção de uma visão compartilhada de futuro, fortalecimento das redes sociais, envolvimento das comunidades religiosas, entre outras medidas.

Como explicar casos de violência entre jovens de classe média, como o dos estudantes acusados de terem espancado um garçom, em Porto Seguro?
Essas ocorrências trágicas comprovam que a associação mecânica entre pobreza e violência é completamente equivocada. A violência existe em todas as classes sociais e não está relacionada apenas a fatores econômicos. Imaginar que a violência no Brasil poderá ser resolvida apenas com a redução do desemprego é ilusório. Há que se considerar também fatores como as relações familiares, o exemplo de vida recebido dos pais, a ausência de limites, os valores éticos, a cultura do "macho man", o uso de drogas, tudo isso inserido no contexto de cultura da violência que vigora em nossa sociedade, incluindo a forma banal e sensacionalista com a qual, muitas vezes, a mídia lida com essa questão.

GENTILEZA - uma breve reflexão

O verdadeiro parâmetro para você avaliar o seu grau de gentileza não é o quão bem você trata os seus "pares" ou "superiores", mas sim como você lida com aqueles que, de algum modo, você considera "abaixo" de si - como por exemplo, os seus empregados ou subordinados, as pessoas que lhe servem, os de uma classe econômica menos privilegiada, os que possuem escolaridade menor que a sua, as crianças e os velhos.

Ser gentil com os seus "pares" pode ser apenas estratégia de sobrevivência, porque você pode precisar deles a qualquer momento. Ser gentil com seus "superiores" (patrão, autoridades, pessoas mais ricas ou poderosas) pode ser mera bajulação. Portanto, cumprimentar os seus vizinhos não vale como indicador de gentileza, mas sim se você cumprimenta os porteiros e serventes de seu prédio, e as empregadas domésticas que circulam no elevador com você. Isso é o que que define a sua gentileza!

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Cultura de Paz e o enfrentamento à violência

A seguir, reproduzo o texto de minha autoria publicado pelo Jornal do Brasil e utilizado pela Cesgranrio no concurso para a Petrobras Distribuidora (veja meu post anterior):

A mobilização em prol da paz, no Brasil, nasceu do aumento da violência, principalmente quando a criminalidade passou a vitimizar as classes privilegiadas dos centros urbanos. Desse modo, a paz que os brasileiros buscam está diretamente vinculada à redução de crimes e homicídios. Refletir sobre a construção da cultura de paz passa, portanto, pela análise de como a sociedade compreende e pretende enfrentar o fenômeno da violência. Esse tem sido o tema de inúmeros debates. É possível agrupar, grosso modo, três paradigmas que implícita ou explicitamente estão presentes nessas discussões – o da repressão, o estrutural e o da cultura de paz.

O modelo baseado na repressão preconiza, como solução para o problema da violência, medidas de força tais como policiamento, presídios e leis mais duras. Essas propostas sofrem de um grave problema – destinam-se a remediar o mal, depois de ocorrido. Também falham em reconhecer as injustiças sócio-econômicas do país. Apesar disto, é o mais popular pois, aparentemente dá resultados rápidos e contribui para uma sensação abstrata (mas fundamental) de segurança e de que os crimes serão punidos.

Sem dúvida, o Brasil necessita de reformas que resultem em maior eficiência na aplicação universal das leis, mecanismos de controle social sobre o poder judiciário, e redução drástica da corrupção e impunidade. São também prementes mudanças no sistema policial, colocando-o a serviço da coletividade e expurgando o banditismo de seu seio. Essas transformações são necessárias, mas insuficientes para se alcançar o almejado estado de paz.

O segundo paradigma afirma que a causa da violência reside na estrutura social e no modelo econômico. Consequentemente, se a exclusão e as injustiças não forem sanadas, não há muito o que se fazer. Apesar de bem intencionado ao propor uma sociedade mais justa, esse modelo vincula a solução de um problema que afeta as pessoas de forma imediata e concreta – violência – a questões complexas que se situam fora da possibilidade de intervenção dos indivíduos – desemprego, miséria etc. – gerando, desse modo, sentimentos de impotência e imobilismo.

Uma compreensão distorcida desse modelo tem levado muitos a imaginar uma associação mecânica entre pobreza e violência. É preciso que se contraponha os fatos: (a) A violência se faz presente em todas as classes sociais, faixas etárias e grupos étnicos; (b) Pobreza não é causa de violência. Por outro lado, as disparidades econômicas, a exclusão social e a falta de perspectivas são expressões de violência estrutural, bem como fatores causais da violência interpessoal.

É importante evidenciar a violência estrutural, pois ela encontra-se incorporada ao cotidiano da sociedade, tendo assumido a aparência de algo normal ou imutável. Mas a paz não será conquistada apenas por mudanças nos sistemas econômico, político e jurídico. Há que se transformar o coração do homem.

O terceiro é o paradigma da cultura de paz, que propõe mudanças de consciência e comportamento – inspiradas em valores universais como justiça, diversidade, respeito e solidariedade – tanto de parte de indivíduos como de grupos, instituições e governos. Os defensores dessa perspectiva compreendem que promover transformações nos níveis macro e micro não são processos excludentes, e sim complementares. Buscam trabalhar em prol de mudanças tanto estruturais quanto de atitudes e estilos de vida. Também enfatizam a necessidade e a viabilidade de se reduzir os níveis de violência através de intervenções integradas e multi-estratégicas fundamentadas na educação, na saúde, na ética, na participação cidadã e na melhoria da qualidade de vida.

O primeiro passo rumo à conquista da paz e não-violência no Brasil é uma mudança paradigmática: o modelo da cultura de paz deve tornar-se o foco prioritário das discussões, decisões e ações. Só será possível colher os frutos da Paz quando semearmos os valores e comportamentos da Cultura de Paz. Isso é a tarefa de cada um de nós, começando pelas pequenas coisas e no cotidiano, sem esperar pelos outros. Gradualmente outros serão sensibilizados e decidirão fazer a sua parte também.